quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O censo, a mulher e o agro 4.0

   

Por Coriolano Xavier, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) 
O crescimento do espaço econômico-social da mulher no campo aumentou em todo o país. Em 2006, elas representavam cerca de 12% dos produtores rurais e, em 2017, chegaram a 18% do total. A informação vem do Censo Agropecuário 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cujos dados finais foram divulgados em outubro e mostram claramente a maior participação das mulheres na produção e condução dos negócios no agro, revertendo uma situação histórica de baixa visibilidade feminina.

De acordo com o Censo, 650 mil propriedades são geridas exclusivamente por mulheres, enquanto 1,06 milhão tem sua administração dividida entre o casal. Números que mostram a mulher como protagonista ou parceira na gestão de 1,7 milhão de unidades de produção, ou seja, 34% dos cinco milhões de estabelecimentos rurais existentes no país. Com um aspecto bastante relevante, apontado pelo Censo: a maioria dessas mulheres que tocam as propriedades, sozinhas ou em parceria, tem idade entre 24 e 45 anos.
São jovens e ascendentes, na perspectiva do ciclo profissional das pessoas, e seu fortalecimento no campo ocorre em momento de profunda transformação tecnológica, com a chegada da agricultura 4.0 e suas oportunidades de inteligência artificial e automação. Um novo cenário evolutivo do agro, que encontra cadeias produtivas de alta competitividade internacional, mas também uma realidade social em que pessoas analfabetas e que não terminaram o ensino fundamental ainda representam 66% da população envolvida na produção rural – este também um dado do Censo Agropecuário.

Sabe-se que a tecnologia muitas vezes altera padrões organizacionais e sociais, gerando novos desafios de gestão com o papel de harmonizar o máximo possível a transição entre duas realidades produtivas. O que não é bem novidade por aqui, pois historicamente o agro brasileiro já teve que se reinventar várias vezes por conta do impacto de tecnologias disruptivas. Dos fundamentos da Revolução Verde nos anos 1970 à edição genética que incorpora resistência a doenças, por exemplo, o setor já conviveu um bocado de vezes com a desconstrução criadora típica da ciência.
A mulher tem um senso de autocrítica e de inclusão muito grande. E por isso pode ter um papel de extrema contribuição nesse contexto demandante de reinvenção das pessoas, que vem junto com a tecnologia 4.0 e sua potência de mudar o modo como fazemos as coisas, em profundidade, provocando impactos sociais concretos. Hora de dar boas-vindas a essa ascensão das mulheres ao design e construção das relações com o capital humano rural – seu engajamento e direcionamento evolutivo. Isso tem a ver com futuro e vale pensar como se pode criar mecanismos, ferramentas e processos que estimulem a participação da mulher gestora do campo na formatação e harmonização desse agro em turbilhão tecnológico. 

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