Produtores querem investir em pesquisas para controlar o bicudo-do-algodoeiro
Eliminar o Bicudo-do-algodoeiro (
Anthonomus grandis)
é atualmente o maior desafio dos cotonicultores do Brasil. Essa é a
visão de um grupo de representantes dos produtores de algodão da Bahia,
que visitou ontem (13/07) a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
(Brasília, DF). Eles vieram acompanhados dos presidentes da Associação
Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA), Celestino Zanela; da
Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), Júlio Cézar
Busato; e da Fundação Bahia, Ademar Antônio Marçal e foram recebidos
pelo chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, José
Manuel Cabral, e pelo chefe-geral da Embrapa Algodão, Sebastião Barbosa.
A visita teve como objetivo principal conhecer
in loco as
novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas pela Embrapa para o
manejo do bicudo nas áreas de ecologia, semioquímicos e controle
biológico com fungos.
O bicudo é considerado a pior praga do
algodão desde 1983, quando a espécie foi introduzida no Brasil, mais
precisamente no estado de São Paulo. Segundo estimativas divulgadas no
ano passado durante o
10º Congresso Brasileiro do Algodão,
a presença do bicudo do algodoeiro vem causando perdas de R$ 1,7 bilhão
por ano aos produtores. As larvas do bicudo ficam escondidas no
interior dos botões florais, o que dificulta sua identificação e
combate.
O manejo integrado de pragas foi uma das soluções
apresentadas pelos pesquisadores Carmen Pires e Edison Sujji, do
Laboratório de Ecologia e Biossegurança. No Laboratório de Bioecologia e
Biossegurança, eles mostraram aos produtores de algodão um estudo
intitulado "Bioecologia do bicudo na entressafra e distribuição espacial
na paisagem agrícola".
A pesquisa mapeou áreas de ocorrência do
bicudo em períodos de entressafra, com o objetivo de identificar o
padrão de dispersão do bicudo na paisagem agrícola, tanto em áreas de
plantio quanto em áreas de vegetação no entorno.
Os resultados
trazem dados como preferência por alimentos alternativos ao algodão,
períodos de dormência e reprodução e rotas de entrada e saída da praga
em campo. "Neste momento, precisamos ter acesso a dados de fazendas com
populações maiores de bicudo, para saber se a infestação pela praga está
ligada à vegetação ou ao manejo", explicou o pesquisador Edison Sujii.
"É preciso trabalhar com a população de bicudo na entressafra e
concentrar o controle das áreas que estão favorecendo a permanência do
inseto-praga", complementou a pesquisadora Carmen Pires.
Ecologia química é alternativa para combate ao bicudo
Os produtores de algodão da Bahia também conheceram as pesquisas na
área de ecologia química realizadas no Laboratório de Semioquímicos da
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. A pesquisadora Maria
Carolina Blassioli de Moraes apresentou as pesquisas realizadas com os
semioquímicos, que são substâncias produzidas por insetos e plantas que
agem no comportamento dos insetos.
O foco foi o estudo dos chamados
feromônios de agregação,
que permitem que os insetos sejam atraídos uns pelos outros ao
descobrirem uma nova fonte de alimento. No caso do
bicudo-do-algodoreiro, os pesquisadores descobriram que o feromônio
perdia a eficiência quando o algodoeiro chegava ao estágio reprodutivo,
mas que a mistura do feromônio de agregação com alguns voláteis do
algodoeiro conseguia aumentar a captura de insetos em armadilhas. "A
próxima etapa é sintetizar esses compostos em larga escala para oferecer
esta alternativa aos produtores", explicou a pesquisadora Carolina
Blassioli, ressaltando que a Embrapa já está em negociação com uma
empresa interessada na produção dos compostos. Após essa etapa, será
possível criar armadilhas mais eficientes para a captura do bicudo.
Os pesquisadores da Embrapa também já identificaram os compostos
químicos que repelem o bicudo, para os quais estão sendo feitos testes
de confirmação de eficácia.
Nos últimos anos, o Instituto
Nacional de Propriedade Industrial (INPI) concedeu à Embrapa duas
patentes de tecnologias que vão ajudar os produtores brasileiros a se
livrar de insetos-praga: uma contra o percevejo-do-colmo do arroz (em
2016) e outra contra os percevejos da soja (2013). Ambos os métodos
utilizam semioquímicos para eliminar as pragas, dispensando o uso de
defensivos químicos.
Pastilhas com fungos prometem eliminar o bicudo
No Laboratório de Micologia de Invertebrados, os pesquisadores Marcos
Faria e Rogério Lopes apresentaram alguns fungos que podem ser usados no
controle biológico do bicudo-do-algodoeiro.
A coleção da
Embrapa conta com aproximadamente 1.300 isolados de fungos, que são
utilizados para estudos básicos e aplicados. Segundo Marcos Faria,
existem mais de 30 empresas no mundo produzindo fungos para controlar de
diversas pragas agrícolas.
No caso específico do bicudo, o pesquisador explicou que o
Metarhizium anisopliae
tem se mostrado bastante eficaz, mas ressaltou que ainda é preciso
desenvolver formas de produzi-lo em larga escala com baixos custos.
Uma das propostas apresentadas pelos pesquisadores para tornar o uso de
fungos contra insetos-praga economicamente viável é a produção de
pastilhas biodegradáveis, os chamados "pellets", para o
bicudo-do-algodoeiro. A pastilha seria uma mistura de feromônio para
atrair o adulto do bicudo e fungos específicos que, em contato com o
inseto, causariam a sua morte. "O inseto se contamina, volta para o
campo e contamina outros indivíduos da mesma espécie", explicou Rogério.
O pesquisador disse que já foi feita a seleção de isolados de fungos
virulentos ao bicudo. As próximas etapas da pesquisa são selecionar as
doses de feromônios que devem ser inseridas nos pellets, o material para
incorporação do fungo, realizar estudos com os pellets formulados e
bicudos em casas de vegetação e finalizar a pesquisa com os testes em
campo.
"Quando o produto estiver pronto, vamos definir qual será
a melhor estratégia de utilização nas lavouras e incorporá-la aos
programas de manejo já adotados pelos agricultores", finalizou Rogério.
Plataforma de insetos da Embrapa guarda exemplares de bicudo para pesquisa
A parte final da visita dos produtores de algodão foi a visita à
Plataforma de Criação de Insetos da Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia, onde são guardados cerca de três mil lagartas e 2.400
insetos utilizados em pesquisas.
A plataforma guarda cinco tipos de percevejo e ainda exemplares de
Spodoptera frugiperda (Lagarta do cartucho),
Anticarsia germmatalis (Lagarta-da-soja),
Aedes aegypti (Mosquito da dengue),
Culex (Pernilongo) e
Anthonomus grandis (Bicudo-do-algodoeiro).
Os técnicos Isabella Grisi e Hélio Santos explicaram que os insetos são
recolhidos no campo, colocados em quarentena e só então trazidos para a
plataforma, onde se reproduzem e são alimentados com dieta artificial.
"A cada dois anos, buscamos novos insetos no campo para melhorar a
genética da população", contou Isabella.
Projeto apresentado pela Embrapa prevê resultados num período entre três e cinco anos
A Embrapa apresentará à Associação Baiana dos Produtores de Algodão
(ABAPA), a pedido da própria associação, proposta intitulada
"Desenvolvimento e validação de estratégias inovadoras de controle do
bicudo-do-algodoeiro". Os produtores de algodão deverão investir cerca
de R$ 3 milhões no projeto, e, como contrapartida, a Embrapa alocará o
dobro desse valor, ou seja, R$ 6 milhões.
A proposta está
estruturada em oito linhas de ação que serão desenvolvidas de forma
paralela ao longo dos três primeiros anos e uma ação (drone + sensor de
voláteis para detecção do bicudo no campo) cujo produto será gerado
entre em até cinco anos.
Os resultados esperados incluem novas
tecnologias de controle do bicudo, que poderão ser aplicadas
isoladamente ou de forma integrada. São elas: Monitoramento inteligente;
Pastilha para o bicudo; Cápsula protetora de fungos; Estudos de
ecologia populacional e dispersão da praga e plantas hospedeiras;
Entendimento da flutuação populacional do bicudo; Avaliação da
resistência de inseticidas; e Produção comercial de parasitoide.
O projeto será coordenador pelo pesquisador da Embrapa Algodão José
Ednilson Miranda em cooperação com pesquisadores da Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Informática Agropecuária, Embrapa
Agrossilvipastoril, Embrapa Arroz e Feijão e Embrapa Cerrados. Também
são parceiras do projeto duas empresas de produção de fungos e
parasitoides do Brasil (BUG e Isca) e três instituições americanas
(Clemson University, USDA e Texas A&M).
"Eliminar o bicudo é
o grande desafio do setor agrário brasileiro. Por isso, os produtores
precisam botar a mão do bolso e investir em pesquisas que pensem em
todas as possibilidades de controle para reduzir a população do bicudo a
níveis aceitáveis", afirmou o presidente da Fundação Bahia, Ademar
Antônio Marçal. "O investimento em pesquisa é o começo de todas as
nossas necessidades", disse.
Segundo Marçal, atualmente os
produtores de algodão chegam a fazer até 40 aplicações de inseticida por
safra para conter o bicudo. Cerca de R$ 1.000 são gastos por hectare
para fazer a aplicação do produto, sem contar o custo de aplicação. O
Chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, José Manuel
Cabral, ressaltou que tanto o apoio financeiro quanto o institucional
são muito importantes para que a Embrapa continue levando seus
resultados aos produtores.