A seca no nordeste é uma realidade conhecida, principalmente em áreas
de sertão, mas no último ano ela se agravou em lugares que
historicamente não passam por estiagens tão severas, como o sul e o
sudoeste da bahia.
Os impactos da falta de chuva na agricultura e na pecuária dessas regiões deixou a situação dramática em alguns lugares.
O sudoeste e o sul da bahia não são regiões acostumadas a enfrentar
períodos tão longos com pouca chuva. Agora, vivem uma estiagem de nível
extremo, com a mesma intensidade do sertão e deixa pecuaristas e
agricultores preocupados com as mortes de gados e lavouras perdidas.
A estiagem atingiu até mesmo o litoral sul, lugar de mata atlântica,
onde normalmente chove por ano 2 mil milímetros bem distribuídos. Porém,
no primeiro semestre de 2016 só choveu 500 mil milímetros.
Produção de cacau afetada
Na região de Ilhéus, a maior produtora de cacau do país, houve prejuízo
nas lavouras. Por causa da falta d'água, as plantações estão secas e os
frutos não se desenvolveram, vários ficaram murchos, pretos e caíram do
pé impossibilitando que algo fosse aproveitado na safra.
"Na safra que seria colhida até agosto, vai haver uma perda de mais de
50% de safra. Algumas propriedades não vão colher nem 10% do que
colheram no ano anterior", disse o agrônomo Silvino Kruschesvky.
Com os problemas nas lavouras, alguns fazendeiros estão dispensando
funcionários: "A gente trabalha aqui de 20 a 24 funcionários, nesse
momento são 15 e vai baixar para 12 e até o fim do ano vão ser só 8...
Boa parte deles mora aqui com as famílias e não tem como mantê-los com
produtividade tão baixa", explica o proprietário Arthur Slaibi.
Lavouras de café sofrem
A produção de café conilon também foi afetada e a produção deve cair
pela metade. O desenvolvimento dos grãos demorou tanto que em algumas
lavouras a colheita só começou três meses depois do normal. O grão que
sai pequeno da lavoura fica menor ainda depois de seco e descascado e
causa prejuízos.
"O produtor perde duas vezes: na lavoura e depois do beneficiamento
porque ele vai precisar de mais café para encher uma saca de 60 kg",
explica o produtor Edimar Margotto Junior.
Pecuaristas perdem gado e produção de leite
O gado é o mais afetado pela seca. Na região de Itapetinga, no sudoeste
da Bahia, onde está 40% do rebanho do estado, mais de 30 mil cabeças de
gado morreram em 14 municípios da região, segundo a Agência de Defesa
Agropecuária do estado.
Nos últimos 11 meses, só choveu forte em duas semanas de janeiro. Nos
outros meses, os índices ficaram muito abaixo da média. Para o diretor
do sindicato rural da região de Itapetinga, Marcelo Ferraz, os prejuízos
vão além da perda do rebanho. A recuperação de pastagens é o que mais
vai exigir do criador, pego de surpresa com a seca prolongada.
"É uma seca inusitada, tanto que chegou numa situação como essa porque
não acreditava-se que fosse chegar a esse ponto. Então é um ano de
prejuízo total. Se tiver financiamentos, escalonameto das dívidas, e
chuva- se chover- vão ser três, quatro anos, no mínimo, pra recuperar",
disse ele.
Sem capim para pastagem, os pecuaristas tentam diminuir os prejuízos
com ração, mas nem sempre é suficiente. Alguns fazendeiros levam os
animais que conseguem ganhar um pouco de peso com a ração para áreas
alugadas de pastagens em outros municípios. Além disso, alguns tentam
conter os gastos com ração retirando pastagem de regiões que não estão
totalmente secas.
A seca também afetou a produção de leite e a queda na região é de 60%.
Uma fábrica de iogurte e queijos passou a operar dia sim e dia não e 25%
dos funcionários foram dispensados. O presidente, Antônio Rodrigues,
explica que os ajustes foram necessários: "Nós não podemos é pensar em
fechar a cooperativa porque fazemos a captação de leite de pequenos
produtores. E nessa época eles foram os que sofreram mais".
Com as mortes e a retirada de gado, a redução no rebanho em 14
municípios da região de Itapetinga chega a 15%. Mais de oito mil
produtores foram atingidos, segundo a Agência de Defesa Agropecuária da
Bahia. O período normal de estiagem na região começa agora então
agricultores e pecuarista devem se preparar para pelo menos mais três
meses sem chuva.